Por que os muçulmanos estão matando muçulmanos?

Os militantes islâmicos converteram uma mesquita na cidade Bir al-Abd, na península do Sinai, Egito, em um mar de sangue nesta sexta (24). Os jihadistas que detonaram explosivos e atiraram em pessoas que estavam fazendo orações deixaram um rastro de 305 mortos além dos feridos, de acordo com as autoridades.

Até agora, nenhum grupo reivindicou a responsabilidade pelo ataque, mas a região vem testemunhando uma insurgência do ramo islâmico sunita contra as forças de segurança egípcias, além de perseguição aos cristãos. Mas por que os muçulmanos matam pessoas que compartilham de sua mesma fé no dia mais sagrado da semana para eles dentro de um local de adoração a Allah?

As crenças daqueles que estavam dentro da mesquita, e daqueles que a atacaram oferecem muitas respostas.

A mesquita Al Rawdah, localizada a cerca de 40 quilômetros a oeste da capital provincial de El Arish, é frequentada por muçulmanos sufis. Os militantes do Estado islâmico (ISIS), que se estabeleceram na região da Província do Sinai são os principais suspeitos do ataque terrorista mais mortífero da História contra mesquitas.

Sabidamente, eles são salafitas, muçulmanos que seguem uma linha ultraconservadora do Islã, interpretando o Alcorão literalmente. Entre os seus seguidores estão os membros de grupos como Al Qaeda e Estado Islâmico. Para eles, os sufis são hereges.

O sufismo é uma espécie de ramo místico do islamismo, que venera líderes mortos e alguns santuários, comportamento que a ISIS considera idólatra. Da mesma forma que os jihadistas olham com ódio para a comunidade cristã copta do Egito e criticam com veemência os xiitas do Irã e do Iraque, eles detestam os seguidores do sufismo, que é mais uma filosofia que uma divisão religiosa.

Os seguidores do sufismo realizam práticas místicas porque acreditam que elas podem lhes oferecer proximidade com Deus. No entanto, para os jihadistas, os sufis se desviam do caminho religioso prescrito no Alcorão, em particular por causa de sua veneração de túmulos. Mas a principal causa da discórdia é que os sufistas não apregoam a conversão forçada dos infiéis nem a dominação territorial que é característica da jihad (guerra santa).

O estudioso de religiões comparadas William Stoddard, em sua obra Sufismo: Doutrina metafísica e via espiritual no Islã, afirma que a prática da islamismo “compreende, para o fiel, três grandes categorias: islã (submissão à lei revelada), imã (fé na shahada) e ihsan (virtude ou sinceridade).” A prática do sufismo está relacionada a essa última categoria, a ihsan, ou prática da virtude, que para os muçulmanos fundamentalistas é vista como fraqueza, pois não segue o que diz a sharia.

Mesquita Al Rawdah na cidade Bir al-Abd

Por interpretarem os preceitos do Alcorão de uma forma mais “flexível”, em comparação às demais doutrinas islâmicas, o sufismo prega a tolerância em relação às demais religiões. Essa visão conciliatória e pacifista é derivada de sua busca de uma via (ou caminho) espiritual dentro islã, que deve ser trilhado através do cultivo das virtudes. Para este caminho, os sufis dão o nome de dhirk, isto é, a prece invocatória que veicula a “lembrança de Deus”.

O Estado Islâmico já atacou os sufistas do Sinai no passado, incluindo a decapitação de um clérigo superior da região: sheik Suleiman Abu Heraz. Em diversos lugares do sul da Ásia e do Oriente Médio, os militantes do EI atacaram os sufis, suas mesquitas e seus locais de encontro. Em 2014, eles destruíram vários santuários e túmulos de muçulmanos sufis na província síria de Deir Ezzor.

Em fevereiro, um terrorista suicida do EI atacou um dos mais renomados santuários sufis do mundo, o Sehwan Sharif, localizado na província sul do Sindh, no Paquistão, matando 80 pessoas e ferindo mais de 250.

A distinção de sufistas e jihadistas, em última análise, é que, por serem os sufis acusados de enfraquecer o islamismo ao apregoarem a tolerância, tornam-se alvos dos muçulmanos que pretendem conquistar o mundo e livrá-lo dos infiéis.

Com informações NewsWeek